Ushuaia

32º Dia-492 km-Quatro Barras -> Botucatu



Durante muitos anos, questionei o fato de me sentir bem, vivo, quando estou na estrada, é complicado explicar, para muitos não faz sentido, andar por andar, não entendem o que nos motiva. Isso é compreensivo, eu mesmo só entendi depois de rodar mais de 30.000 km, refleti anos para chegar a uma conclusão. Cada ser humano que está neste planeta, vive em constante evolução, mesmo sem entender o porque, estamos todos os dias da nossa vida, buscando aprender, de certo que uns mais, outros menos, alguns para o bem, outros para o mau, mas uma coisa é certa, não há interrupção, a busca é constante. O interessante, é que para alguns, ela caminha de forma rápida, e para outros, ela parece andar a passos lentos. Isso é natural, pois evoluímos, somente quando estamos fazendo o que mais gostamos, por outro lado, fazer o que gosta, nem sempre é possível, muitas pessoas tentam, e as que fracassam, acabam por levar uma vida, distante da sua verdadeira evolução. Estes são fáceis de identificar, inconscientemente, com a finalidade de compensar esta perda, tendem a eleger um bem material, como símbolo máximo da sua evolução. Acredito, que as coisas que adquirimos, possuem um único propósito, o de servir, são instrumentos que irão nos auxiliar nesta busca. Os paraquedistas percebem evoluir plenamente, quando estão em queda livre, usam para atingir este objetivo, um instrumento chamado paraquedas, os artistas, percebem o real motivo de sua existência, quando estão interpretando, usam o palco como instrumento. Sendo assim, hoje sei o caminho que me leva a evoluir, e eu o encontro, quando estou me aventurando pelas estradas, usando como instrumento, a moto. Talvez venha daí a ligação que sentimos com os caminhoneiros, e eles com agente, somos de uma classe totalmente diferente, mas com o mesmo objetivo, de estar na estrada, e nela sentir-se pleno, as únicas coisa que nos diferenciam, são os tamanhos.
Hoje foi o último dia desta overdose de estradas, 32 dias depois de muita diversão, tensão, discussão, admiração, compreensão, concentração, enfim, muitas coisas que terminam em "ão", estamos próximos do nosso destino final. Em meio às curvas da Regis Bitencourt, a poucos quilômetros de casa, foi inevitável refletir sobre as loucuras que fizemos. Andamos por muitos dias com um vento lateral muito forte, que apesar dos sustos, superamos com muita perseverança. Enfrentamos temperaturas, que em movimento, passavam a sensação térmica de menos 5 graus, mais uma vez, vencemos essa adversidade realizando um bom planejamento. Encaramos os temidos trechos de rípio, e o que aprendemos andando com a XR-200 em estradas mineiras, ajudou muito a sairmos ilesos. Recuamos com sabedoria, quando alugamos um carro para conhecer o chuvoso parque de Torres del Paine, aprendemos que certas atitudes tem limites. Conhecemos muitas pessoas, talvez daqui algum tempo, alguns não estarão mais presentes em nossas memórias, mas outros, jamais esqueceremos. Assim, devaneando, sujos e cansados, porem realizados, chegamos  na cidade de Registro, local da última parada desta grande aventura. Muitos postos depois, aqui nos separamos, tomamos a última Coca-Cola da viagem juntos, e nos despedimos. O Giba foi para São Paulo, e eu, apesar de também morar na mesma cidade, precisei passar antes em Botucatu. Assim, ele seguiu em frente pela Regis Bitencourt, e eu peguei a saída para Registro, a medida que nos distanciávamos o sinal do intercomunicador desapareceu, agora estávamos definitivamente seguindo sós. Não demorou muito percorrer a péssima estrada que da acesso a portaria do Parque Estadual Carlos Botelho, meia hora depois de deixar o posto,  eu já estava subindo a Serra da Macaca. Fui bem devagar, apreciando a natureza ao mesmo tempo em que agradecia o fato de tudo ocorrer como o planejado. Fiz uma parada na beira de um rio, descansei um pouco e continuei subindo. Próximo  a Tatuí, o tempo fechou, 12.000 km praticamente sem chuva, e eu ia ficar ensopado a menos de 100 km de casa. Não teve jeito, foi inevitável, poucos quilômetros a frente, fiquei embaixo de um céu azul escuro, não demorou muito pra quela nuvem gigantesca começar a despejar uma imensa quantidade água, segui com chuva forte até chegar em Botucatu, molhado, porem são e salvo.
Se me perguntarem: Você faria esta viagem novamente?  eu responderia: Sem dúvida!  
















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